sexta-feira, 4 de junho de 2010
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Felicidade: Realidade ou ilusão?
Alguns filósofos e cientistas se debruçaram nesse tema e definiram a felicidade. O cientista Albert Einstein, disse que se alguém quer viver uma vida feliz, amarre-se a uma meta, não às pessoas nem às coisas. Já felicidade para o filósofo Sócrates, é livrar-se das coisas materiais e isso só poderá ser feito através do conhecimento de si mesmo.
Nas sociedades primitivas, a felicidade estava condicionada à satisfação das necessidades básicas como comer e gozar o momento presente. Na Idade Média felicidade é a certeza da vida eterna apesar das agruras da vida. Partindo da impossibilidade de alcançar a verdadeira felicidade aqui na terra, a ética cristã transfere sua obtenção para um mundo ultra-terreno. A felicidade só pode ser obtida no céu, como compensação da infelicidade terrena. Deste modo, uma felicidade ideal e ilusória vem substituir a felicidade terrena e real.
É com Max Weber que se inaugura uma nova ética para a justificação do capitalismo quando afirma que Deus se agrada com a prosperidade material e consequentemente com a felicidade do homem. Essa justificação da prosperidade material dá início a uma nova visão em relação à aquisição de bens materiais sem cair na maldição da Igreja Católica Medieval.
Numa sociedade capitalista há um forte apelo em adquirir o objeto desejado como condição básica de satisfação do eu. O sistema capitalista coisifica as pessoas, mede-as quantativamente e despe-as dos valores morais e éticos antes prioritários agora passam para o plano secundário.
O pensamento ético moderno, particularmente o dos filósofos iluministas e materialistas franceses do século XVIII, sustenta o direito dos homens serem felizes neste mundo, mas concebe a felicidade num plano abstrato, ideal, fora das condições concretas da vida social. Tais pensadores esqueciam o fundamento aristotélico de que o homem necessita de condições concretas para sua felicidade. Essas condições, todavia são escassas numa sociedade materialista e competitiva como a capitalista onde muitas vezes o sucesso independe do talento, da criatividade e da formação intelectual.
Felicidade tem uma concepção subjetiva; para um capitalista significa acumular riquezas; já para um socialista-comunista, o ideal é reparti-la; para um índio é satisfazer as suas necessidades básicas; para um estudante, a felicidade seria construir conhecimento; para um analfabeto, saber ler e escrever; para um colecionador, completar a sua coleção; já para um amador iniciante, ter a primeira peça e assim por diante. Nessa linha de raciocínio, infere-se que o ser humano entende a felicidade como a satisfação do eu.
Assim felicidade é uma construção cultural, algo relativo e subjetivo, pois depende, incondicionalmente, da visão de necessidade de cada pessoa. No sistema capitalista a prioridade é para as necessidades momentâneas e materiais (O celular de última geração, a TV de LCD, o carro do ano, roupa da moda, um corpo perfeito) em detrimento de valores éticos e morais.
No mundo atual, afetado por uma lógica do capitalismo selvagem, temos mais de dois bilhões de pessoas que estão totalmente excluídas da possibilidade de gozar da felicidade. Excluídas pela má distribuição de renda, por uma política suja e corrupta, pela falta de oportunidade de um Estado ausente em relação às necessidades dos cidadãos que pagam seus impostos em dia...
Felicidade é possível; só depende que concepção se tem dela.
sábado, 2 de janeiro de 2010
A ESCOLA E A (DES) EDUCAÇÃO
Como educador tenho observado a escola como veículo transformador da sociedade. Devo confessar que me deixa apreensivo o atual desempenho da educação. A escola está perdendo de vista sua vocação: transformar vidas. A escola que não transforma o aluno em cidadão crítico, ético e consciente de seu papel como agente atuante na sociedade não está cumprindo seu papel. Não tem razão para existir.
A educação brasileira passa por uma crise de qualidade sem precedentes na história. Professores despreparados e/ou desmotivados “avaliam” o aluno com os mais bizarros critérios. Quando inquiridos por que aprovam tais alunos vêm com as mais variadas desculpas: “é questão de caráter e a escola não transforma caráter”; “ele é chato”, “vamos aprovar porque ele precisa trabalhar”, “não vai ser ninguém mesmo” “não aprendeu até aqui”. Esses profissionais não estão preocupados em educar mas alijar o aluno indesejado.
O professor que aprova o aluno despreparado está procurando achar uma forma de compensar sua incapacidade e incompetência em não tê-lo educado. Revoltamos-nos com notícias de erros médicos, mas passam despercebidos erros pedagógicos que aleija o educando para o resto da vida. A diferença do erro pedagógico para o médico é que as consequencias do segundo são de curto prazo. Seria necessário a esses “profissionais” lerem Paulo Freire, Antonio Gramsci, Piaget, e outros mais. Assistir filmes como “Sociedade dos poetas mortos”, “Escritores da liberdade” “Ao mestre com carinho”, “Dança comigo” para terem alguma idéia de como educar.
A respeito da educação Paulo Freire mostra como ela deve ser compreendida teoricamente e como se deve agir através de uma educação denominada Libertadora. Para ele, educação é um encontro entre interlocutores, que procuram no ato de conhecer a significação da realidade e na práxis o poder da transformação. Ora, se Freire comenta o poder transformador da educação logo ela não deve ser uma educação “bancária”, transmissor de conteúdos onde o aluno é agente passivo desse processo. Segundo Freire, “mudar é difícil, mas é possível e urgente”. Para o professor atual cabe o desafio de mudar educacionalmente, ou seja, romper com os paradigmas clássicos que explicam os cenários que vivemos hoje: o da obsolência do conhecimento.
Por que esse descaso com a educação? Talvez seja porque ensinar o aluno a pensar e compreender seu papel no mundo não faz parte da cartilha de nenhum governo. Talvez seja porque nós, educadores atuais, mesmo sem querer, reforçamos os valores da sociedade que aí está, vazia, imediatista, materialista...
domingo, 27 de dezembro de 2009
QUERO SER RECONHECIDO...
Quero ser reconhecido pelos gestos pequenos,
Por ter olhado meu semelhante com amor e carinho
Ter estendido a mão amiga a quem estava caído,
Estado ao lado dos solitários...
Quero ser reconhecido por atos simples
Como o conselho que evitou um sofrimento,
Em ter dado um livro que transformou uma vida...
Quero ser reconhecido pelo aluno que viu seu sonho realidade!
Pelo “vai dar certo” aos que não tinham esperança...
Quero ser reconhecido pela perseverança quando todos diziam que era impossível...
Pela a alegria estampada no rosto de um mendigo ao receber um sapato usado ...
Quero ser reconhecido por ter dito “Feliz Natal” para uma família deixada à beira da estrada numa noite de frio...
Por ter abraçado um menino de rua, em ter sido útil para os “inúteis,” lembrado dos esquecidos, levado felicidade aos infelizes, esperança aos sem esperanças, esquecidos por uma sociedade materialista!
Quero ser reconhecido pelos gestos pequenos, imperceptíveis, como ter ajudado uma velhinha a atravessar a rua, saciado a fome de um pedinte... enxugado uma lágrima!
Quero ser reconhecido não pelos grandes gestos, mas por aqueles que nos pequenos atos meus, sentiram a minha presença...
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
INVISIBILIDADE SOCIAL: A OUTRA FACE DO PRECONCEITO
As raízes da apartheid social no Brasil remontam aos primeiro anos da formação do povo brasileiro. Esse preconceito tem vários fatores: o econômico, o social, o cultural, o religioso, tec. Porém, o que está mais presente nos últimos tempos é o social; por ser mais disfarçado, é mais cruel e desumano.
Palavras-chaves: apartação. Discriminação, invisibilidade social.
segundo a enciclopédia, o conceito de invisibilidade social “tem sido aplicado, em geral, quando se refere a seres socialmente invisíveis, seja pela indiferença, seja pelo preconceito, o que nos leva a compreender que tal fenômeno atinge tão somente aqueles que estão à margem da sociedade”.
Existem diversos fatores que contribuem para que a invisibilidade social ocorra: histórico, cultural, social, religioso, econômico, estético etc. É o que acontece, por exemplo, quando um mendigo é ignorado de tal forma que passa a ser apenas mais um objeto na paisagem urbana.
A invisibilidade histórico-cultural tem as suas raízes no contexto da expansão européia ultramarina. A conquista da América obedeceu ao projeto de expansão econômica e religiosa. A Europa por não possuir riquezas naturais suficientes para sua expansão econômica, foi necessário sair à procura de novas terras onde fosse possível alcançar o objetivo da expansão: explorar as riquezas do Novo Mundo. Segundo a política econômica da época, o acúmulo de metais preciosos era sinônimo de prosperidade econômica. No campo religioso, a Igreja Católica necessitava de recuperar novos membros – arrebanhados pela Reforma Protestante.
Os portugueses quando da chegada ao continente americano não vieram acompanhados de suas esposas, logo se uniram maritalmente com a ameríndia e depois com a negra. Daí deu-se início a futura formação do povo brasileiro com a combinação de basicamente três etnias: o europeu, o índio e o negro.
Essa união provocou a resistência da Igreja Católica por considerá-la espúria – na visão católica cristã. Na preocupação de zelar pelos bons costumes e moral cristãos, a Igreja obrigou-os a legalizar a união realizando o casamento dos primeiros lusos no novo continente.
Essa miscigenação cristalizou-se com as futuras levas de escravos negros trazidos da África para o Brasil. Esse amálgama racial cristalizou-se tornando motivo de preocupação de cientistas e pensadores racistas do século XIX. Chegou-se a pensar que trazendo imigrantes europeus, em poucos anos a população de cor negra se extinguiria.
Daí para desenvolver o preconceito foi um passo. A concepção européia de que o trabalho manual – praticado pelos negros escravos era aviltante ao nobre – tornou-se um estigma para futuras gerações. O trabalho manual tornou- se sinônimo de inferioridade social. Estava-se inaugurando a apartheid social em terras americanas.
A mentalidade da nobreza européia não concebia que eles fossem os agentes diretos do trabalho manual. Seria necessária uma leva grande de mão-de-obra escrava para fazer possível a realização desse projeto. Como o português já possuía experiência com o trabalho escravo – pois foram os primeiros a importá-los da África para Portugal - adotaram esse expediente. Quem trabalhou a terra foram os escravos negros e não o europeu. Essa mentalidade logo se fez presente nas relações entre o senhor e escravos. Mais ainda entre os que exerciam trabalhos manuais – ocupação da grande maioria da população.
No século XX, o sociólogo Gilberto Freire, em seu alentado livro “Casa – Grande e senzala” afirma que no Brasil não existiu discriminação na relação senhor de engenho e escravo; mas uma relação amistosa onde reinava uma verdadeira democracia racial. Lilia Moritz Schwarcz confirma a postura freiriana quando escreve que "a propalada idéia de uma ‘democracia racial’ [foi] formulada de modo exemplar na obra de Gilberto Freyre". (Schwarcz: 1998, p. 178).
Outro fator importante na criação do preconceito é o econômico. Apesar de não ser determinante, como alguns pensam, com o desenvolvimento do capitalismo os menos favorecidos tornaram-se homens invisíveis. De acordo com o psicólogo Samuel Gachet, “o sistema capitalista sobrevive sob a lei da mais valia, na qual para que um ganhe é imediatamente necessário que outro perca”. E conclui dizendo que “..a população de baixa renda é vista como um vasto mercado consumidor e essa é a sua única forma de visibilidade” (COSTA).
O fenômeno da apartação tem como exemplo maior o caso da África do Sul. A desigualdade econômica até o final dos anos 40 existia sem haver necessidade de leis que separassem brancos de negros. A população de cor negra convivia e se submetia a esse sistema racista dominada pela maioria branca. Com o desenvolvimento da urbanização e o crescimento econômico, foi necessária a criação em 1950, da Lei do Registro de População onde obrigava a separação dos grupos sul-africanos. Essa lei classificou a população em três categorias: os africanos, ou negros, os de cor ou mestiços e os brancos. A esse sistema dou-se o nome de apartheid, que no idioma africâner significa separação, apartação.
O professor Cristovam Buarque falando sobre a apartheid na África do Sul, afirma que
“Novas leis surgiram complementando o desenvolvimento separado na África do Sul. Foram regulamentadas as áreas onde as pessoas poderiam residir trabalhar e circular conforme sua cor; consolidou-se a necessidade de passaportes para os não- brancos circularem entre as áreas; proibiram-se contatos sociais, inclusive casamentos, entre pessoas de raças diferentes; foram estabelecidos sistemas segregados de educação com diferentes padrões e qualidades; definiram-se tipos de emprego para cada raça; foram restringidos os movimentos sindicais de trabalhadores não-brancos; e negou-se a participação política aos não-brancos nos processos parlamentares e governamentais” (1999).
Esse sentimento de superioridade dos brancos em relação aos negros foi o responsável por uma nova ética que lhes dava a sensação de irresponsabilidade e ausência de culpa ante a desigualdade. Encontramos um paralelo com no exemplo dos europeus em relação aos escravos negros e os índios. E agora nos tempos da modernidade esse sentimento de não-culpa está presente diante da pobreza urbana, da fome, da mortalidade infantil, dos meninos de rua.
A forma mais cruel da apartheid já não é o racial: é o social. Cristovam Buarque ao se referir a imigração nos Estados Unidos afirma que
“A proposta de novas leis para a imigração não visam impedir entrada de estrangeiros conforme a raça, mas conforme a renda. Os Estados Unidos dão direito de residência permanente a qualquer pessoa, de qualquer nacionalidade ou raça, desde que ingresse com certo montante de dólares” (BUARQUE: 1999).
E conclui dizendo que
“O avanço técnico integrou os países e as pessoas do planeta, mas dividiu-os socialmente (...). A apartheid renasceu com outra forma, e em dimensão planetária, mas com o mesmo propósito: garantir, por meio da exclusão das grandes massas, os privilégios que não podem ser distribuídos para todos” (BUARQUE: 1999).
Esse sistema de segregação social foi tratado e vivenciado pelo psicólogo da USP Fernando Braga da Costa, que passou por uma experiência inusitada ao encarnar o papel de gari em defesa de sua tese de doutorado intitulada “Garis – um estudo de psicologia sobre invisibilidade pública” (COSTA: 2004). Ele observou durante sua experiência que atos cotidianos como olhar, reconhecer e cumprimentar as pessoas, são visivelmente ignorados. O psicólogo descobriu que muitas vezes os trabalhadores são tratados de forma pior do que um animal doméstico, que, pelo menos é chamado pelo nome. Até com seus professores e colegas não foi reconhecido. Ou seja, a pessoa comum, no Brasil perde sua identidade, fica sem rosto. Inclusive sua tese serviu de inspiração para o personagem da atriz Camila Pitanga da rede globo que interpretou o papel de faxineira. A atriz vivenciou a dolorida experiência de ser invisível socialmente.
Juliana Porto em seu artigo “Invisibilidade social e a cultura do consumo” ao se referir aos trabalhadores sem identidade diz que,
“(...) Quando, a caminho do trabalho, passamos por um gari fazendo a varredura de nossa calçada, o identificamos por seu uniforme como executante de tal função, mas não o notamos por suas singularidades. Ao contrário, o vemos quase como se fosse parte do mobiliário urbano”.
Na sociedade capitalista existe uma inversão de valores. A mídia como criadora de celebridades momentâneas, constrói verdadeiros castelos de areia que se desmoronam à presença dos primeiros vendavais. Apelando para o estético, ascende ao estrelato pessoas comuns usando como critérios o externo e o bonito. Em uma sociedade onde os valores morais e éticos são colocados no lugar do medíocre e superficial, o talento e competência são preteridos em nome da fama passageira, pelo domínio da mídia, da cultura da aparência, da publicidade, do espetáculo fútil. O cidadão comum é marginalizado, apartado por uma sociedade consumista e materialista; desprovido de bens materiais perde a sua identidade, torna-se um anônimo. Sem nome. Sem rosto.
Licenciado em História pela Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC – Ilhéus–Ba. Pós-Graduando em Psicopedagogia institucional e clínica pela Universidade do Espírito Santo – UNIVES.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
COSTA, Fernando Braga da. “Homens invisíveis” – retratos de uma humilhação social” . Ed. Globo, 2004.
SCHARCZ, Lilia Moritz. 1998. Nem preto nem branco, muito pelo contrário: cor e raça na intimidade. In: Fernando A. Novais, (org.). História da vida privada no Brasil, v. 4, Contrastes da intimidade contemporânea, organizado por Lilia Moritz Schwarcz. São Paulo: Companhia das Letras, p. 173-244.
BUARQUE, Cristovam. O que é apartação: a apartheid social no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1999.
SKIDMORE, Thomas E. Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
PORTO, Juliana. “Invisibilidade social e a cultura do consumo” s/d.
sábado, 21 de novembro de 2009
IGREJAS CARISMÁTICAS: PODER E ÊXTASE
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O fenômeno religioso é tão antigo quanto a humanidade. A palavra religião é de origem latina (religio). O significado não é claro. Cícero (106-43 a. C.) no De Natura Deorum afirma que a palavra vem da raiz relegere (“considerar cuidadosamente”), oposto de neglere, descuidar. Já Lactâncio, escritor cristão (m. 330 d.C.), diz que vem de religare (“ligar”, “prender”). Para Cícero, a religião é um procedimento consciencioso , mesmo penoso, em relação aos deuses reconhecidos pelo Estado. Para Lactâncio, a religião liga os homens a Deus pela piedade. Um termo de partida e um de chegada, em que princípio e fim são os mesmos. As duas raízes complementam-se
A religião tem sido tema para discussões e resultante de inúmeras interpretações. Ao longo da História, tem-se feito inimizades e travado guerras em nome da religião e da fé. E quem está com a razão? Ninguém se atreve a admitir estar errado no campo religioso. A Igreja Católica medieval dona de uma postura intransigente e autoritária – reivindicava para si a missão de guiadora e detentora do direito de decidir o destino das almas. Em conseqüência disso, condenou inocentes à fogueira na certeza de estar fazendo a vontade de Deus. A postura de determinadas instituições religiosas modernas, em certos pontos, não tem sido diferente. Algumas Igrejas evangélicas adotam políticas egoístas e prepotentes na condição de guiadora de almas.
No século XVI, com o surgimento do capitalismo, vai aparecer um fenômeno novo no campo das relações de fé. Com a prática capitalista do ganho material – condenada a princípio pela Igreja Católica - o protestantismo justifica essa prática atribuindo o sucesso material ao favor de Deus. Max Weber, falando sobre esse tema afirma que o capitalismo encontra sua razão de ser com a conduta dos puritanos que se consideravam eleitos. Segundo Weber, “o ascetismo intramundano praticado pelos puritanos – com seu grau de racionalização – engendrou, segundo ele, o espírito do capitalismo, produzindo empresários e trabalhadores ideais para a consolidação de uma nova ordem social, que integrou, como nenhuma outra, um numero excepcional de pessoas sintonizadas entre si, para canalizar esforços produtivos (na economia) conforme a orientação (política) preestabelecida.” Esse espírito do capitalismo desenvolveu na vida dos primeiros protestantes o desejo de ganho material como dádiva divina, ou seja, a riqueza - antes condenada pela igreja católica – agora era bem vinda como sinal do favor de Deus. E em contrapartida, a igreja protestante usa essa “dádiva” para autorizá-la como instituição legítima e verdadeira. Cabe aos membros aceitarem pela fé as orientações do líder espiritual – verdadeiro guia do povo – e retribuir essa dádiva em forma de dízimos e ofertas. Nessa relação de fidelidade condicional entre membro e oferta está envolvido o destino eterno dos membros. A fidelidade nas ofertas torna-se um fator condicional para a entrada no reino celestial.
Nas igrejas evangélicas de estilo carismático, predomina o sentimentalismo, em que as emoções são o fator motivador para a realização de “curas” e “milagres” ao gosto e necessidade de cada um. Esse fenômeno é responsável por um crescimento vertiginoso; é a teologia da prosperidade material hoje e agora. Essa relação imediatista vida terrena/bens materiais, vem de encontro das necessidades de um povo carente e esquecido pelos poderes públicos. Abandonado e desassistido, só lhe resta apegar-se a esses “profetas” da prosperidade para enfrentarem a realidade dura e miserável. Sem esperança de uma vida melhor – negada pelo Estado -, só resta refugiar-se na fé e olvidar da realidade que o cerca.
A relação crente/igreja foi assunto de reflexão do filósofo Dewey. Ele faz distinção entre ter uma religião e ser religioso. Para ele, ter uma religião é pertencer a uma Igreja e obedecer aos dogmas por ela impostos. Ser religioso é encaminhar o pensamento para os aspectos cósmicos da vida, ou seja, para a humildade, a simplicidade e o amor ao próximo.
Karl Marx observando esse comportamento alienante dos que professam uma fé, afirmou que a religião é o ópio do povo. Essa frase soa para os religiosos como uma blasfêmia. Se analizarmos o fenômeno religioso moderno, verificamos que Marx não estava errado. A fé dissociada de uma dose de racionalidade (o que não contradiz a fé) leva a atitudes perigosas e inconseqüentes. Pessoas que doam toda os seus pertences e, em casos extremos, praticam suicídios coletivos por ordem de visionários fanáticos. E como não falar nas manobras de políticos corruptos se aproveitando desse estado de alienação das massas como verdadeiros “currais eleitorais”?
O educador Ruben Alves afirma que “... quando o pobre/oprimido, das profundezas do seu sofrimento, balbucia:” é a vontade de Deus”, cessam todas as razões, todos os argumentos, as injustiças se transformam em mistérios de desígnios insondáveis e a sua própria miséria, uma provação a ser suportada com paciência, na espera da salvação eterna de sua alma. E adiante, o escritor conclui: “E os poderosos usam as mesmas palavras sagradas e invocam os poderes da divindade como cúmplices da guerra e da rapina”.
Corrigindo a frase de Marx de que a “religião é o ópio do povo”, diria que o papel de pseudo-religiosos na condução espiritual do povo é o responsável por sua alienação; subvertendo o verdadeiro sentido da relação criatura/Criador ,os falsos guias acabam oprimindo a gente humilde e ingênua afastando-a das verdadeiras benesses cristãs. Somente com uma fé consciente e um certo grau de racionalidade, é possível à religião cumprir seu verdadeiro papel: a re-ligação do adorador com o autor de todas as coisas.
(frazaoprof@hotmail.com)
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ALVES, Ruben. O que é religião. Col. Primeiros passos, brasiliense, s/d
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São
Paulo: Martin Claret.
DEMOCRACIA BRASILEIRA
DEMOCRACIA BRASILEIRA:
UM REGIME DE FACHADA
Por José Frazão Araujo Souza
Há dias atrás a televisão (somente a rede Record) noticiou que o governo Lula fez um acordo com o Vaticano - e aprovado pelo parlamento na quarta-feira 25 de agosto à noite, - em que o governo brasileiro concede à igreja católica o direito de adotar o ensino religioso nas escolas públicas.
Muito me espantou a decisão do governo brasileiro por dois motivos: primeiro, a sociedade em momento algum foi consultada. Segundo, porque o Estado brasileiro é laico, ou seja, não tem religião oficial, não apenas desde a Constituição de 1988, mas desde o decreto n. 119-A, de sete de janeiro de 1890. A laicização do Estado brasileiro foi confirmada pela primeira Constituição republicana, promulgada em 24 de fevereiro de 1891, no parágrafo 7º de seu art. 72, que desde então foi reproduzido pelas constituições subsequentes até chegar ao art. 19, inciso I da Constituição de 1988 que, quase com a mesma redação, proíbe à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público".
A liberdade religiosa é uma conquista de séculos contra o domínio católico cristalizado na Idade Média onde a Igreja – única religião no mundo europeu – controlava com sua ideologia a vida do homem medieval. Esse controle e depois perseguição religiosa não se restringiam somente às questões de fé, mas também à ciência. Os dogmas católicos tinham mais autoridade que a razão e a ciência. O astrônomo italiano Galileu Galilei é um exemplo disso: Após um julgamento longo e atribulado foi condenado a abjurar publicamente as suas idéias e a prisão por tempo indefinido por ensinar a teoria do heliocentrismo (o sol como centro do universo) em contraposição ao que a Igreja dizia que a Terra era o centro do universo baseando-se nos ensinos do filósofo grego Aristóteles.
Essa hegemonia milenar da Igreja começou a ruir com os ensinos do monge agostiniano alemão Martinho Lutero. Inconformado com os abusos que a igreja praticava – da qual ele pertencia e não pretendia se desligar, – pregou na entrada da Universidade de Wittenberg, atual Alemanha, as suas 95 teses. Dentre as teses, tratava da questão da salvação somente pela fé e não pelas obras – como a igreja católica ensinava. Lutero denunciou a quebra do juramento celibatário pelo clero para manter amantes e viver de forma lasciva e desordeira. Havia também a exploração da fé da população quanto à venda de indulgências (perdão dos pecados) e simonia (venda de relíquias sagradas). A reação da Igreja Católica às críticas do monge não se fez por esperar: sem admitir seus erros e isenta de humildade reagiu com a contra – reforma. A Igreja confirmou seus dogmas mesmo com o risco de uma cisão. Só restava aos que discordavam da postura autoritária e anticristã desligar-se da Igreja-mãe e fundar uma nova denominação onde fosse possível viver de acordo com os ensinamentos do humilde Jesus a quem professavam obediência, e reconheciam como única autoridade entre o céu e a terra.
O acordo selado entre o governo e a Santa Sé provocará um retrocesso histórico - intelectual conquistado às custas de muita luta e sangue pelos reformadores do século XVI e logo após cristalizada pelos iluministas no século XVIII onde a razão e não a fé cega (pregada pela igreja medieval), deveria guiar seus caminhos. A laicidade das escolas na França foi decorrência da disseminação das idéias difundidas pelos filósofos das luzes. Agora em pleno século XXI o autoritarismo da Igreja Católica parece renascer das cinzas como um vulcão adormecido para assombrar seus moradores.
Alguns católicos quando entrevistados a respeito do acordo firmado entre o governo brasileiro e a Santa Sé se posicionaram contra essa medida. Foram coerentes e lúcidos quanto à questão do ensino religioso nas escolas públicas. Como ficarão outras denominações quanto ao direito de ensinar nas escolas suas doutrinas? E o direito dos estudantes de não assistir às aulas? E o que dizer da liberdade religiosa confirmada pela Carta Magna, a Constituição brasileira? Essas são questões por demais importantes para serem deixadas à mercê de alguns parlamentares incautos e incultos.
O jornalista Didymo Borges comentando o acordo entre Brasil e o Vaticano, diz que
“ nunca é demais relembrar que a experiência da intromissão de religião nos negócios de Estado tem proporcionado exemplos de deletérias conseqüências tais como na teocracia no Irã, no regime talibã no Afeganistão, na ditadura islâmica na Arábia Saudita, na ideologia comunista alçada à condição de cega
religiosidade na Coréia do Norte”.
Os exemplos da História nos indicam que a associação do Estado com religião ou com a anti-religiosidade, como no exemplo da Alemanha nazista e na União Soviética do regime stalinista, resultam em dolorosas conseqüências que devemos evitar. Não podemos nem devemos remeter o Brasil ao obscurantismo medieval com este acordo com o Vaticano. Basta de acordos e leis de natureza corrupto-idiossincrática que engessam , atrasam e expõem o povo brasileiro à sanha obscurantista de interesses inconfessáveis.
Mesmo após a proclamação da República em 1889, o Estado brasileiro sempre andou de mãos dadas com a igreja católica. Na prática, a Igreja sempre agiu como única denominação a impor sua vontade e autoritarismo. Por ocasião da Guerra Fria onde o bloco socialista ameaçava implantar o comunismo em países periféricos, a Igreja trabalhou com a ideologia de que o comunismo era obra do demônio e o sistema capitalista a panacéia para a humanidade. Com o lema Deus, Pátria e Família, o Movimento Integralista Brasileiro teve seu ideal de família baseado na doutrina católica. Nela, de sua solidez e do seu controle quanto à moralidade, primordialmente, a católica, estaria a base de sustentação de toda o restante da sociedade.
No golpe militar de 64 a Igreja esteve ao lado dos militares. Só após seus próprios membros serem perseguidos e torturados pelo regime que defendeu (Frei Betto, Frei Tito entre tantos), é que reagiu e lutou em defesa de seus membros.
A liberdade religiosa não fica, absolutamente, restringida com a preservação da laicidade do Estado, que é condição sine qua non para o Estado democrático de Direito. Não devemos abrir mão dessa conquista tão importante para nós cidadãos, senão corremos o risco da democracia brasileira se tornar tão somente um regime de fachada.